Momentos de um pai com a sua filha inexistente.

 

Toda manhã eu olho para ela, vejo o tempo esticar as suas pernas e braços, vejo a inteligência viva buscando ser uma árvore com uma copa frondosa, vejo uma sede para aprender sobre o mundo inteiro e lembro de mim, há um tempo atrás antes dela vir morar na minha caixa torácica, eu queria esquecer tudo que aprendi e estar próximo do meu desaparecimento, pois sempre carreguei a ideia de que aprendi tudo errado e um poema que nasce torto deve ser reescrito desde a sua primeira linha, mas hoje, vendo esses olhões tão vivos que me olham com afeto, sinto que existo para alguém, é boa a sensação de que entre bilhões de pessoas ela deseja ficar comigo, o seu pai, mesmo que ela seja tão miúda e não saiba a quantidade de pessoas que habitam o nosso planeta, talvez ela pense que exista no máximo 32 pessoas, pois é o número limite da sua contagem, doze números além dos dedos (ela me diz com orgulho). Eu gostaria que tudo fosse assim tão simples, tão menos infinito, as crianças sabem encolher o mundo ou talvez saibam habitar o mundo, habitar o momento e ser uma presença real que anda usando somente meias pela casa, mas inteiras.

 

 

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