Sempre gostei mais das noites de sexta, são noites que transpiram um clima noir, sensualidade em camadas de veludo carmesim, penso nas bocas cheias de saliva e desejo, pernas enroscadas estreitando o encaixe, penso nas mãos entrelaçadas, não falo de mãos dadas daquele modo romântico como os passeios dominicais em parques ensolarados, falo sobre os dedos enroscados, mãos que se apertam sem se quebrar, prendendo o tempo, sexta de suor e ritmo, os amantes dançam uma dança secreta e única, penso nas gotas que deslizam pelos poros e regam com desejo toda extensão da pele dos corpos que se unem.

 

Gosto de visualizar a imagem dos lençóis amassados, as janelas escancaradas, uma penumbra que esconde exibindo os corpos tão humanos, tão sagrados, penso nas vozes que não matam os gritos, que gemem e urram de prazer e este grito percorre a noite passando pelas vielas, becos e avenidas, não se envergonham, não há pecado ou culpa, só existência na sua forma mais primitiva e humana. Vida sagrada

 

Quando os corpos estão desfalecendo em gozo, eles aumentam o ritmo, a dança se intensifica, os amantes olham-se nos olhos, as fibras musculares tremem, a parte interna das coxas gritam, as unhas tocam os pulmões, o suor delira alucinado, a velocidade aumenta, os pilares do tempo desmoronam, o ar entre e sai carregando sons deliciosos cheios de saliva, frenesi, as estrelas dançam atrás das nuvens poluídas.

 

Os amantes desfalecem, desmoronam em rios e risos, molhados em um mundo cheio de secas, faz tempo que não chove humanidade.

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